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quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

OS MONTADOS

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OS MONTADOS

A imagem apresentada, cujo original é um desenho a tinta da China, de ALFREDO MORAES de colecção particular, ilustra o texto “OS MONTADOS”, inserido na 19ª edição de “FINALMENTE…(LEITURAS PARA A 4ª CLASSE), da autoria de Joaquim Tomás, Chagas Franco e Ricardo Rosa y Alberty, editado em data desconhecida, pela Livraria Popular de Francisco Franco, de Lisboa.
ALFREDO MORAIS (1872-1972), aguarelista e ilustrador contemporâneo, trabalhou em litografia na Imprensa Nacional e foi professor na Sociedade Nacional de Belas Artes. Fez ilustrações para jornais - como “Folha do Povo”, “Diário da Manhã”, “O Século”, “Diário de Notícias”, “O Mundo” e para numerosos livros, sendo bastante disputado pelas editoras.
Foi discípulo de Ramalho e Alfredo Keil. Figurou na 5ª Exposição do Grémio Artístico (1895), na 1ª Exposição da Sociedade Nacional de Belas Artes (1901) e seguintes. Foi galardoado com a medalha de honra na Sociedade Nacional de Belas Artes e com a medalha de ouro no Rio de Janeiro, bem como o 1º Prémio Roque Gameiro em 1946. Encontra-se representado no Museu do Chiado, Museu Regional Grão Vasco, Viseu, Museu Militar e outros.

O texto atrás referido é:

OS MONTADOS

Uma das grandes riquezas florestais do nosso país é constituída pelos montados*, ou sejam os povoamentos de azinheiras, de sobreiros e de carvalhos que cobrem uma superfície de 790.000 hectares, dos quais pertencem 380.000 às primeiras, 340.000 aos segundos e 70.000 aos últimos.
Se os pinheiros são de todo o País e os castanheiros são mais da sua metade norte, os montados, principalmente os de azinho e sobro, que são os mais importantes, abundam especialmente na sua parte sul.
Os montados de azinheiras e sobreiros cobrem quase completamente todo o País ao sul do Tejo até às serras do Algarve, e ainda parte dos distritos de Castelo Branco e Guarda, e são uma das maiores riquezas dos lavradores pela produção de bolota, que desempenha um importante papel na engorda de grandes varas* de porcos, dando um sabor esquisito à sua carne; pela enorme produção de lenha e carvão; e ainda pela casca do sobreiro, a cortiça, que é uma das maiores forças de receita do nosso país e serve de matéria-prima a uma das mais ricas indústrias de Portugal.
A cortiça portuguesa é preferida nos mercados estrangeiros, onde tem atingido elevadíssimos preços, pois é superior em qualidade à que exportam a Espanha e a Argélia, únicas regiões no Mundo, além de Portugal, onde ela se cria.
Aos sobreiros só de nove em nove anos se extrai a cortiça, gastando todo esse tempo na sua criação.
A tirada da cortiça, que se realiza apenas nos meses de Maio, Junho e Julho, é um dos trabalhos mais típicos* e curiosos dos nossos campos, tendo servido de tema a pintores e escritores para reproduzirem em tela ou descreverem em livros essas cenas tão cheias de pitoresco.
A cortiça, pelas inúmeras operações que sofre, desde a tirada da árvore até à sua exportação, quer em prancha, quer transformada em rolhas, quer moída em aglomerados ou desfeita em pó para a fabricação de corticite ou para a embalagem* e conserva de frutas frescas, emprega um grande numero de braços, sendo origem de uma das maiores actividades do País.
As azinheiras e os sobreiros gostam de terrenos ásperos, calcinados*, e o seu porte é majestoso e severo.
De um verde-escuro, um tanto triste mas perdurável, parecem feitos para cantar um céu mais azul e um sol mais quente, cm uma terra mais dilatada. Por isso os montados imprimem às vastas planícies alentejanas aquele aspecto grave e austero que se respira no ar, que se nota na terra e que caracteriza a gente.

VOCABULÁRIO

Montados: Campos de azinheiras, carvalhos e sobreiros.
Varas: manadas (quando são de porcos).
Típicos: característicos; que têm um tipo próprio
Embalagem: empacotamento; enfardamento.
Calcinados: queimados pelo Sol.

O Vocabulário vem no fim do livro.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

FLORBELA ESPANCA: ÁRVORES DO ALENTEJO


FLORBELA ESPANCA (1894-1930)

Estas árvores de que fala Florbela, são decerto, os sobreiros :

FLORBELA ESPANCA: ÁRVORES DO ALENTEJO

Horas mortas... Curvada aos pés do Monte
A planície é um brasido... e, torturadas,
As árvores sangrentas, revoltadas,
Gritam a Deus a bênção duma fonte!

E quando, manhã alta, o sol posponte
A oiro a giesta, a arder, pelas estradas,
Esfíngicas, recortam desgrenhadas
Os trágicos perfis no horizonte!

Árvores! Corações, almas que choram,
Almas iguais à minha, almas que imploram
Em vão remédio para tanta mágoa!

Árvores! Não chorais! Olhai e vêde;
- Também ando a gritar, morta de sede,
Pedindo a Deus a minha gota de água!
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quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Em memória de uma ceifeira chamada Catarina

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Gravura de José Dias Coelho (1923-1961)
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Carlos Paredes(1925-2004):
Em Memória De Uma Camponesa Assassinada
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CANTAR ALENTEJANO
Vicente Campinas (1938 - ) *
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Chamava-se Catarina
O Alentejo a viu nascer
Serranas viram-na em vida
Baleizão a viu morrer
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Ceifeiras na manhã fria
Flores na campa lhe vão pôr
Ficou vermelha a campina
Do sangue que então brotou
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Acalma o furor campina
Que o teu pranto não findou
Quem viu morrer Catarina
Não perdoa a quem matou
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Aquela pomba tão branca
Todos a querem p’ra si
Ó Alentejo queimado
Ninguém se lembra de ti
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Aquela andorinha negra
Bate as asas p’ra voar
Ó Alentejo esquecido
Inda um dia hás-de cantar
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* Este poema foi musicado por José Afonso
no álbum "Cantigas de Maio",
editado no Natal de 1971.
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terça-feira, 1 de dezembro de 2009

TRAJO POPULAR ALENTEJANO - Camponês com pelico e safões

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ALBERTO DE SOUZA (1880-1961), notável aguarelista e ilustrador,
calcorreou o país de lés a lés na primeira metade do século XX,
funcionando como consciência plástica da Nação.
Foi ilustrador de bilhetes-postais, como este,
o nº 35 da "Série B" - Costumes Portugueses,
tendo impresso no verso um selo do tipo "TUDO PELA NAÇÃO"
de $25 (azul) ou de 1$00 (vermelho).

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TRAJO POPULAR ALENTEJANO - Camponês

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ALBERTO DE SOUZA (1880-1961), notável aguarelista e ilustrador,
calcorreou o país de lés a lés na primeira metade do século XX,
funcionando como consciência plástica da Nação.
Foi ilustrador de bilhetes-postais, como este,
o nº 34 da "Série B" - Costumes Portugueses,
tendo impresso no verso um selo do tipo "TUDO PELA NAÇÃO"
de $25 (azul) ou de 1$00 (vermelho).
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TRAJO POPULAR ALENTEJANO - Ceifeira

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ALBERTO DE SOUZA (1880-1961), notável aguarelista e ilustrador,
calcorreou o país de lés a lés na primeira metade do século XX,
funcionando como consciência plástica da Nação.
Foi ilustrador de bilhetes-postais, como este,
o nº 33 da "Série B" - Costumes Portugueses,
tendo impresso no verso um selo do tipo "TUDO PELA NAÇÃO"
de $25 (azul) ou de 1$00 (vermelho).
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TRAJO POPULAR ALENTEJANO - O pastor

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ALBERTO DE SOUZA (1880-1961), notável aguarelista e ilustrador,
calcorreou o país de lés a lés na primeira metade do século XX,
funcionando como Alinhar à esquerdaconsciência plástica da Nação.
Foi ilustrador de bilhetes-postais, como este,
o nº 32 da "Série B" - Costumes Portugueses,
tendo impresso no verso um selo do tipo "TUDO PELA NAÇÃO"
de $25 (azul) ou de 1$00 (vermelho).
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Sobre o traje, diz-nos o etnólogo Luís Chaves [1]: "O traje surge-nos como produto natural do meio, isto é, de quanto dentro e à volta do homem existe, e tudo o que influi no espírito e actua nele.Desde a escolha e adopção de tecidos,até à cor e forma, desde a ornamentação, ao arranjo das partes componentes, tudo aí tem razão de ser como é, e tem de estar onde está.".
O trajo alentejano, tal como é revelado pelos bonecos de Estremoz, é rico e diversificado, quer seja usado por homem ou mulher, estando em relação directa com a posição de cada um na escala social e com as tarefas diárias desempenhadas.

[1] CHAVES, Luís – A Arte Popular – Aspectos do Problema. Porto: Portucalense Editora, 1943.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

HOMENAGEM AO ALENTEJO

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HOMENAGEM AO ALENTEJO
Isaurinda Brissos

http://www.isaurindabrissos...
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Michel Giacometti, nascido na Córsega, licenciado em Letras de Etnografia, lança a âncora em Portugal em 1959. Por cá relaciona-se com o maestro Fernando Lopes Graça, que lhe transmite preciosas informações sobre o património musical português e o encoraja a realizar os seus primeiros trabalhos no norte do País.
Michel Giacometti descobriu Peroguarda através de António Reis, cineasta e poeta Portuense.

http://www.isaurindabrissos.com/peroguarda-michel-giacometti/
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CEIFEIROS

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Dordio Gomes (1890 – 1976)
Gadanheiro (Ceifeiro)
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CEIFEIROS
Francisco Bugalho
in Poesia, Portugália Editora, Lisboa, 1906
http://castelodevide.blogspot.com/2003/12/sobre-francisco-bugalho.html

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Estes ceifeiros não são
Os ceifeiros do Fialho.
Têm braços, mãos, almas duras,
Têm fogo no coração,
Têm amor ao seu trabalho,
Por ser trabalhar no pão.

Estes ceifeiros não são
Grilhetas, são orgulhosos
De darem, ao mundo, pão;
Porque são eles que o dão
A pobres ou poderosos.

Está hoje vento suão.
Está quente, - oh, gentes! Está quente!
Vamos lá, outro empurrão!
Não vá desgranar-se o grão...
- E a fila marcha prá frente.

Range o restolho cortado,
Pela serrilha da foice,
E aquele mar ondulado,
Que foi lindo mar doirado,
Não tem espiga que baloice.

Quando a gente está afeito,
Quase não sente o calor.
Cortar o pão quer-se feito
Co'a ternura, gosto e jeito
Com que se fala de amor.

A espiga está grada e bela.
O Inverno ainda vem longe.
E, nesta vida singela,
Ter pão é estar à janela
E poder olhar pra longe.

Estes ceifeiros não sabem
Mais que a vida natural.
Mas têm a intuição que cabem,
Às mãos que esta faina acabem,
Dons do sobrenatural.
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CEIFA - A NATUREZA DO TRABALHO

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Dordio Gomes (1890-1976)
"Verão" ou "A Ceifa"
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Fialho de Almeida in Os Ceifeiros in À esquina

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Na verdade, a ceifa é trabalho algo árduo e duro. É preciso ter boa têmpera, estar habituado a supor­tar o calor de brasa que cai do céu de chumbo para aguentar esse trabalho, essa luta heróica do homem com a terra.
Só quem ainda não viu, na hora de maior calma, os ceifeiros, homens e mulheres (que as mulheres também estão afeitas a estas duras lides) curvados sobre a terra, empunhando a foice na mão direita e com a esquerda agarrando os caules de espigas que uma mancheia pode abarcar, caules que corta de um golpe, o mais junto da terra possível, não sabe ava­liar bem a natureza deste trabalho campestre.
Sente-se a luta no estalar dos caules secos e no roçar do trigo pelos corpos em movimento.
Atrás, ao lado uns dos outros, abarcando 3 a 4 regos, lá vão eles deitando por terra o trigo, enquanto outros, os atadores, vão apanhando os pequenos mo­lhinhos que os ceifeiros deixam atrás de si e for­mando com eles molhos grandes que atam com os próprios caules que eles tiram dos molhos já atados e entrelaçam de modo especial junto das espigas.
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TRIGO - CANCIONEIRO POPULAR ALENTEJANO

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Mário Costa (n. 1902?), ilustração para
a capa do relatório comemorativo
do XX Aniversário da Campanha do Trigo, 1929-1949,
da Federação Nacional dos Produtores de Trigo (F.N.P.T.). 1949

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TRIGO - CANCIONEIRO POPULAR ALENTEJANO
Recolha de Victor Santos (1959
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Alentejo, rei do trigo,
De arroz, cortiça, montado,
Vinho, olivais – monumentos
Do vasto solo sagrado.

Alentejo é o rincão
Onde há a maior riqueza;
Mas não se resolve, então,
O problema da pobreza?

Pão nosso de cada dia
Pelos pobres repartido…
Bendito o meu Alentejo
Que é celeiro bem provido!

O sol pinta o trigo d’oiro,
Alua, as folhas de prata.
Alentejo és um tesoiro
Que o ceifeiro aos molhos ata.

Ò terras do Alentejo,
Ó terras que eu sempre amei;
Foi ceifando os loiros trigos
Que o meu amor encontrei…

Ai Alentejo, que amuo
o meu por não ser capaz
de ser rico como tu:
para dar o pão que tu dás.

Não há pepita de oiro
que tenha o valor dum grão,
ninguém transforma um tesoiro
em bocadinhos de pão...

Num pequeno grão de trigo
grande magia se encerra;
para o gerar, sol amigo
e água beijando a terra.

Não maldigas o destino
e cumpre a tua missão;
sem o trigo pequenino
ninguém pode fazer pão.

Trigo loiro, sem que o sintas,
limpo dos frutos do mal,
és pão das bocas famintas,
riqueza de Portugal.
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ALENTEJO

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Paisagem alentejana com figuras Dórdio Gomes (1890-1976)
Óleo sobre Tela (415 x 1380 mm)
Colecção Joaquim Bandeira
(Março de 2009)
Esta obra serviu para o 1º rótulo do vinho Esporão.


ALENTEJO
Manuel Alegre

Folheia-se o caderno e eis o sul
E o sul é a palavra. E a palavra
Desdobra-se
No espaço com suas letras de
Solstício e de solfejo
Além de ti
Além do Tejo
Verás o rio e talvez o azul
Não o de Mallarmé: soma de branco e de vazio
Mas aquela grande linha onde o abstracto
Começa lentamente a ser o
Sul
Outro é o tempo
Outra a medida

Tão grande a página
Tão curta a escrita

Entre o achigã e a perdiz
Entre chaparro e choupo

Tanto país
E tão pouco
Solidão é companheira
E de senhor são seus modos
Rei do céu de todos
E de chão nenhum

À sombra de uma azinheira
Há sempre sombra para mais um
Na brancura da cal o traço azul
Alentejo é a última utopia

Todas as aves partem para o sul
Todas as aves: como a poesia
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quarta-feira, 30 de setembro de 2009

COMOÇÃO RURAL

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Dordio Gomes (1870 - 1976)
Alentejo
Óleo sobre tela (
81 x 60 cm)
Centro de Arte Moderna (Lisboa)
http://www.infopedia.pt/$dordio-gomes


COMOÇÃO RURAL
Azinhal Abelho (1911-1979)


Já não há quem queira dar
uma filha a um ganhão...
Senhor Pai, senhora mãe,
que grande desolação.

Já bati a sete portas
por mais de mil e uma vez;
Vá-se embora seu ganhão,
disseram com altivez…
A minha filha é prendada,
não é para qualquer tunante,
sabe ler, sabe escrever
e todo o seu consoante.
O que é que tem um ganhão?
Um azinho dum pau torto;
só vive das tristes ervas,
não tem onde cair morto.

Os olhos já não são olhos,
estão desfeitos em chorar,
porque a um pobre ganhão
já não há quem queira dar
nem mulher para dormir
nem a filha para mulher;
nem quem o ajude a vestir,
nem quem o ajude a morrer.

Ramos secos, estéreis flores,
pedras de arestas cortantes
perdidas num vendaval,
perdidas numa aflição…
Eu já não posso gritar;
Senhor Pai, senhora Mãe,
que grande desolação
nestes matagais com longes,
aonde os anjos se afundam
em humus e punição!

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BARROS DE ESTREMOZ

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Mercado de Barros em Estremoz - Ilustração de Azinhal Abelho
para seu livro "Barros de Estremoz", Edições Panorama, Lisboa, 1964.
http://pt.wikipedia.org/wiki/Joaquim_Azinhal_Abelho



BARROS DE ESTREMOZ
Maria Guiomar Ávila in À janela da Vida, Estremoz, 1988.


Bilha de barro, enfeitada,
Lembras moçoila corada,
De cara fresca e bonita,
Cinturinha fina
E ancas modeladas
No avental de chita!
Bilha de barro, singela
Como a alma do oleiro
Que te desenha e modela!
Basta olhar-te e logo vejo
- Na tua graça e frescura –
Todo o povo do Alentejo:
Pastores de olhos perdidos na lonjura,
Sem lutas nem ambição,
Falando a sós com Deus
Em longas noites e dias
de solidão;
Ceifeiras e mondadeiras,
Simples e joviais,
Cantando para enganar
O cansaço das horas sempre iguais:

"Lá vai o comboio, lá vai,
Lá vai ele a assobiar.
Lá vai o meu lindo amor
Para a vida militar..."

E os ganhões,
Erguendo ao alto as enxadas,
Em longas filas cerradas
(Como um friso de escultura
De antiga tradição)
Pedindo à terra
O tesouro que ela encerra
E que há-de um dia transformar-se em pão.
E o manajeiro,
O ajuda, o maioral...
Todo este povo humilde,
Honesto e leal,
Em ti perpassa
Como um símbolo vivo
Do trabalho e da raça!

Oh minha bilha, enfeitada,
Lembras moçoila corada,
De cara fresca e bonita,
Cinturinha fina
E ancas modeladas
No avental de chita!
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quarta-feira, 16 de setembro de 2009

A IDENTIDADE CULTURAL ALENTEJANA

http://www.hernanimatos.com/identidadecultural01.htm
Hernâni Matos




ALBERTO DE SOUZA (1880-1961)
A ceifa no Alentejo
Aguarela sobre papel, assinada
Dim. - 14 x 20 cm


A quem não me conhece, permitam-me que me apresente. Sou o Hernâni, natural de Estremoz, terra de barro, esse mesmo barro com que Deus terá moldado o primeiro homem.

Com os pés bem assentes na sólida e vasta planície de Além-Tejo, sinto-me em absoluto sincronismo espiritual com a paisagem que um Silva Porto, um D. Carlos de Bragança ou um Dordio Gomes, tão bem souberam cromaticamente fixar na tela.

De igual modo, um Conde de Monsaraz, uma Florbela Espanca ou um Manuel da Fonseca, registaram poeticamente em vibrantes estrofes, a matriz da nossa natureza ancestral.

Também um Fialho de Almeida, um Manuel Ribeiro ou um Antunes da Silva magistralmente perpetuaram na prosa, o colorido policromático e multifacetado da nossa etnografia, a dureza da nossa labuta, a firmeza do nosso querer, o calor do nosso sentir, a razão das nossas revoltas ancestrais, os marcos das nossas lutas e as mensagens implícitas nas nossas esperanças.

Telas, versos e prosa que são sinestesias que fazem vibrar os nossos cinco sentidos.

O azul límpido do céu, o castanho da terra de barro, a cor de fogo do Sol e o verde seco da copa dos sobreirais, constituem uma paleta de cores, trespassada por uma claridade que quase nos cega e é companheira inseparável do calor que nos esmaga o peito, queima as entranhas e encortiça a boca.

Sonoridades do restolho seco que quebramos debaixo dos pés, sonoridades das searas e dos montados, sonoridades dos rebanhos que ao entardecer regressam aos redis, mas sonoridades também na ausência de sons por não correr o mais leve sopro de aragem.

Odores das flores de esteva, de poejo e de orégãos, mas também do barro húmido, do azeite com que temperamos divinamente a comida e do vinho espesso e aveludado, que mastigamos nos nossos rituais gastronómicos.

São estas profundas marcas, gravadas atavicamente a fogo na alma alentejana, que fazem com que eu seja, não por opção, mas por nascimento, um homem do Sul e um alentejano dos barros de Estremoz.

Sinto o Alentejo com emoção e a dimensão regional das minhas emoções tem a ver com a identidade cultural do povo alentejano, forjada e caldeada em condições adversas. Vejamos em rápidas pinceladas, o que é isso da identidade cultural do povo alentejano.

Em primeiro lugar a identidade cultural do povo alentejano tem a ver com a paisagem, que para Eduardo Teófilo em "Alentejo não tem sombra" é um:

“Plaino imenso, extensão sem fim a perder-se, lá, onde a vista mais não alcança, mar dourado ondulando de leve, num amarelo forte que se vai esbatendo pouco a pouco à medida que a extensão se esquece e acaba. Céu azul, baço, abóbada afogueada por sobre a seara madura, pare­cendo pousada mesmo sobre nós, Sol que não se pode olhar que o reflexo do seu disco brilhante cega e dói.
Não há uma sombra, não se vê viv'alma. O mundo parou, a vida parou, como que hipnotizados pela salva res­plandecente do Sol a pino, bem na vertical”.

Em segundo lugar, a identidade cultural do povo alentejano tem a ver com o carácter do povo alentejano, sobre o qual nos diz Vítor Santos no seu "Cancioneiro Alentejano":

“Independentes, ousados, alegres embora de feições duras e escurecidas pelo sol, eles mostram bem, pelo espírito decidido e olhar sobranceiro e um tudo-nada desconfiado, que possúem a consciência da sua força e do seu valôr”.

Faz parte ainda do carácter do povo alentejano, o amor desmesurado que nutre pela sua terra. Como nos diz Antunes da Silva em "Terra do nosso pão":

“Isto de Alentejanos é gente que puxa para uma banda só. Partir à aventura no rasto da fortuna, caindo aqui, levantando-se além, não é caminho que se abra às vozes da alma dos Alen­tejanos. Nem é o susto de outras paisagens vir­gens para onde os mandam, mas o amor sub­merso que têm ao seu chão e que de repente se ergue como uma força do sangue. Teimosamente agarrados à plenitude dos escampados, ao valor das suas vilas e aldeias, aprendem a ser livres com a natureza que lhes legaram seus avós.”

Em terceiro lugar a identidade cultural do povo alentejano tem a ver com o trajo popular. Diz-nos Luís Chaves em "A Arte Popular – Aspectos do Problema":

“O traje surge-nos como produto natural do meio, isto é, de quanto dentro e à volta do homem existe; e tudo que influi no espírito e actua nele. Desde a escolha e adopção dos tecidos, até a côr e a forma, desde a ornamentação ao arranjo das partes componentes, tudo aí tem razão de ser como é, e tem de estar onde está”. O trajo alentejano é rico e diversificado, quer seja usado por homem ou mulher, estando em relação directa com a posição de cada um na escala social e com as tarefas diárias desempenhadas.

Em quarto lugar a identidade cultural do povo alentejano tem a ver com a gastronomia. O Alentejo é a região do borrego e este é um recurso com elevada cotação na bolsa de valores gastronómicos. Por isso, no âmbito da FIAPE – Feira Internacional Agro-Pecuária de Estremoz, decorre a Semana Gastronómica do Borrego, onde o borrego impera como rei e senhor. Então, os restaurantes locais apresentam receitas a Concurso, todas confeccionadas a partir do borrego. Eis algumas: sopa da panela, ensopado de borrego, borrego guisado com ervilhas, mãozinhas de borrego panadas, perna de borrego trufada, cozido de borrego com grão, feijão verde e abóbora, mãozinhas de borrego com molho de tomate, borrego assado à alentejana, sarrapatel de borrego, borrego de alfitete, miolos de borrego, iscas de fígado de borrego, arroz de fressura, empadas de borrego, tarte de requeijão, bolo de requeijão e queijadas.

Qualquer destes pratos é definidor da nossa identidade cultural. A gastronomia do borrego, essa é património culinário legado pelos nossos ancestrais. É património para mastigar, para saborear e para lamber os beiços, a comer e a chorar por mais, pois barriga vazia não conhece alegrias... Por isso, apetece dizer: - Viva o património mastigável! - Viva! - Avante com a defesa do património! - Avante!

Em quinto lugar a identidade cultural do povo alentejano tem a ver com a arte popular. Desde tempos imemoriais que o pastor alentejano ocupa o tempo que lhe sobra da guarda do rebanho, em gravar desenhos sobre madeira, cortiça ou chifre. Resumidamente referiremos: garfos, colheres, chavões, foicinheiras, esfolhadores, formas de dobar linhas, cabaças, caixas de costura, polvorinhos, cornas, etc. Naturalmente, que na arte popular e muito para além da arte pastoril, há a incluir entre inúmeras outras formas de arte popular, a barrística popular e a olaria.
Diz-nos Virgílio Correia na "Etnografia Artística":

"A Província do Alentejo é a lareira onde arde mais vivo, mais claro e mais alto, o fogo tradicional da arte popular portuguesa.”

Já João Falcato no "Elucidário do Alentejo" diz-nos que:

“Não sabe uma letra o pastor destas terras, em erudição nunca ouviu falar, e é poesia pura a linguagem da sua alma, e é poesia pura o que sai das suas mãos.
E além de tudo mais uma qualidade tem a sua poesia. Não precisa dos livros para se imortalizar. Um raminho de buxo, um nada de cortiça, e, da inspiração fugidia, ficou alguma coisa nas nossas mãos. "

Em sexto-lugar a identidade cultural do povo alentejano tem a ver com o cancioneiro popular. De facto, têm bastante expressão entre nós os poetas populares, muitos dos quais são pastores que criam, sobretudo, décimas e quadras que registam no livro vivo da sua memória. A quadra, essa pode ser brejeira:

Assente-se aqui, menina,
À sombra do meu chapéu,
O Alentejo não tem sombra,
Senão a que vem do céu.


Pode ser também o reflexo do grande isolamento em que vive o pastor, que lhe permite conhecer a natureza que o rodeia, muito em particular, o céu:

As árves que o mundo tem
Cubro-as c’o meu chapéu.
Diga-me cá por cantigas
Quantas ‘strelas há no céu?


Por vezes a poesia encerra uma profunda crítica social:

Sobe o rei no alto trono,
Desce o pastor ao val’ fundo;
Uns p’ra baixo, outros p’ra cima
Vai-se assim movendo o mundo."


Felizmente que através dos tempos tem havido estudiosos que têm procedido à recolha do rico Cancioneiro Popular. Registo entre outros os nomes de Tomás Pires, Luís Chaves, Azinhal Abelho, Manuel Joaquim Delgado, Vítor Santos, Fernando Lopes Graça, Michel Giacometti, a quem presto o tributo do meu reconhecimento por terem tido a clarividência da importância que constitui o registo escrito do Cancioneiro Popular, como forma de assegurar a perpetuidade do que tem de mais rico e genuíno a nossa memória colectiva.

Em sétimo lugar, a identidade cultural do povo alentejano tem a ver com o cante, que segundo a tese litúrgica do padre António Marvão teve origem em escolas de canto popular fundadas em Serpa, por monges paulistas do Convento da Serra d’Ossa, os quais tinham formação em canto polifónico.

No "Cancioneiro Alentejano" – recolha de Victor Santos, diz Fernando Lopes Graça:

“O alentejano canta com verdadeira paixão e todas as ocasiões lhe são boas para dar largas ao seu lirismo ingénito. Não há trabalho, folga, festa ou reunião de qualquer espécie, sem um rosário infindo de cantigas.”

Manuel Ribeiro na "Lembrança dos Cantadores da Aldeia Nova de São Bento, Mértola, Vidigueira e Vila Verde de Ficalho", diz-nos:

“Só no Alentejo há o culto popular do canto. Ali se criou o tipo original do “cantador”. Pelas esquinas, altas horas, embuçados nas fartas mantas, agrupam-se os homens: esmorece a conversa, faz-se silencio e de subito, expontâneamente, rompe um coral. É o diálogo em que eles melhor se entendem, é a conversa em que todos estão de acôrdo.
Quem não viu em Beja, em certas ruas lôbregas, em certos recantos que escondem ainda os antros esfumados das adegas pejadas de negras e ciclopicas talhas mouriscas, quem não viu duas bancadas que se defrontam e donde se eleva um canto entoado, solene e soturno, com o quer que seja da salmodia dum côro de monges?”


Embora possa cantar só, o alentejano canta sobretudo em coros e esse canto é sério, dolente, compenetrado e mesmo solene, porque o alentejano é lento, comedido e contemplativo, por força do Sol escaldante.

O coro une os alentejanos. Como diz Eduardo Teófilo em "Alentejo não tem sombra":

“Há, no entanto, a ligá-los a todos, algo de pró­prio, de indefinidamente próprio e que os torna re­conhecíveis em qualquer lugar em que se encontrem.(...). Todos eles estão marcados a fogo, pelo fogo daquele Sol ardente que, mesmo quando mal brilha, entra nas almas e molda os caracteres, todos eles apresentam o seu rosto cortado por navalhadas de vida e tostados pelas ardências do Sol de Verão, como se vivessem todos, realmente, sem uma sombra a que se abrigar.”

Sobre o cante diz-nos ainda Antunes da Silva em "Terra do nosso pão":

“As cotovias cantam para o céu, tresnoitadas. Os Alentejanos cantam para os horizontes, sonhando. Dessas duas castas melodias nasce a força de um povo!”

Em oitavo lugar, a identidade cultural do povo alentejano tem a ver com a habitação popular, o monte ou a casa de povoado, ambos de planta rectangular e com chaminé aparecendo em ressalto na fachada. Os materiais de construção são a taipa e o tijolo. O telhado é de duas águas, coberto de telhas assentes em ripas. As paredes, reforçadas por vezes com contrafortes, são caiadas de branco. Lá diz o cancioneiro popular:

Nas terras do Alentejo
É tudo tão asseado...
As casas e o coração,
Sempre tudo anda lavado...

Julgo ter ficado sobejamente demonstrado que pela sua paisagem própria, pelo carácter do povo alentejano, pelo trajo popular, pela gastronomia, pela arte popular, pelo cancioneiro popular, pelo cante, pela casa tradicional, o Alentejo é uma região com uma identidade cultural própria.

Como diria o poeta, é preciso, é imperioso, é urgente, que cada um de nós tenha consciência dessa identidade cultural e lute pela sua preservação, valorização e aprofundamento.